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A linguagem secreta da dor: sobre o fenômeno das autolesões

Esse texto é uma adpatação da minha monografia do curso de Especialização em Terapia de Casal e Família no Instituto de Psiquiatria da UFRJ – IPUB no ano de 2013.

 

O Comportamento de Autodano (CAD)[1] tem como objetivo reduzir o sofrimento psíquico e é, muitas vezes, um comportamento efetivo de enfrentamento, apesar de ser autodestrutivo. São diversas as formas com que um indivíduo pode praticar o autodano, entre elas temos: se cortar, arranhar, queimar, bater, morder, puxar pelos, abrir feridas, anorexia, bulimia, abuso de substâncias, comportamentos sexuais de risco, entre outros. Nesse texto focarei nas formas mais diretas de autodano, como se cortar, bater e queimar, mas em outro momento também escreverei sobre as formas indiretas (como anorexia e bulimia).

Na metade dos anos 90 houve uma mudança na forma de se referir a esses comportamentos autoinfligidos que, até então, eram conhecidos como “automutilações”. Nos dias de hoje são mais conhecidos como “autolesões” ou “autoflagelações”. Essa mudança se deu, pois tanto aqueles que executam o comportamento como aqueles que os tratam, acreditam que o termo “automutilação” seja demasiadamente pejorativo, já que grande parte das pessoas tende a provocar lesões leves a moderadas que não resultam na mutilação do corpo propriamente dita. Além disso, também questionam o julgamento de valor feito quando se utiliza essa terminologia, argumentando que os CAD são comportamentos de enfrentamento para lidar com sofrimento psíquico, tendo, dessa forma, um caráter adaptativo, ao contrário, por exemplo, das mutilações ou do suicídio.

Uma das propostas da quinta edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM V), é a criação da categoria “Desordem de Autolesão não Suicida”, como forma de padronização de um diagnóstico.

Aqui usarei a definição de Walsh (2006, p. 4) sobre o comportamento de autolesão como: uma ação intencional (deliberada), autodirigida, com lesões corporais de baixa letalidade (que impõe pouco ou nenhum risco à vida), de natureza socialmente inaceitável e realizada com o objetivo de reduzir estresse psicológico.

Resumindo, os CAD são provocados na tentativa de modificar e reduzir momentaneamente o desconforto psicológico. São geralmente imediatas e substancialmente eficazes, o que explica o fato de serem repetidos muitas vezes. Além disso, não são comportamentos com intenção suicida, apesar de serem motivados psicologicamente.

 

Diferença entre autolesão e suicídio

Antes de aprofundar o tema, é importante diferenciar claramente a autolesão do suicídio, já que para muitas pessoas esses comportamentos se misturam. De acordo com Walsh (2006, p. 5), existem nove aspectos importantes para ajudar a diferenciar se um comportamento é suicida ou de autodano. Eles são: (1) a intenção ou objetivo do sujeito ao se comportar dessa forma; (2)  o nível de dano, ou seja, o potencial de letalidade; (3) o padrão de repetição do comportamento; (4) o método escolhido para realizar o comportamento; (5) o nível de sofrimento emocional vivido pelo indivíduo; (6) o nível de estreitamento cognitivo; (7) presença de sentimentos de impotência e desamparo; (8) a sensação de diminuição do desconforto após o ato; e (9) o problema central vivido pelo sujeito.

No caso de suicídio, a intenção é a de escapar permanentemente da dor emocional através de métodos que provocam danos físicos sérios e que são de alta letalidade (como atirar na cabeça). Normalmente não são comportamentos com alto nível de repetição, acontecendo uma ou duas tentativas ao longo da vida e apenas em momentos de grande estresse emocional, repetindo o mesmo método de escolha para realizar o ato. Além disso, no suicídio o sofrimento costuma ser insuportável e persistente, com fortes sentimentos de desesperança e desamparo, de forma que a pessoa só consegue ver uma solução para seu problema: a morte. Pessoas que sobrevivem a tentativas de suicídio relatam não haver melhora após o ato – muitas vezes sentem-se piores pela falha na tentativa. E por último há uma forte depressão e raiva por causa da dor insuportável e inescapável que acabam causando um ódio mortal por si mesmo.

Já as autolesões tem o objetivo de aliviar sentimentos dolorosos, modificando, assim, o estado de humor da pessoa através de métodos não letais e de pouco a médio dano físico (como se cortar). Frequentemente têm uma forma crônica de repetição e podem ser realizados através de vários métodos (cortar, puxar pelos, queimar, etc.). O sofrimento que leva a pessoa a se comportar dessa forma é normalmente intenso e desconfortável, porém intermitente, já que há uma melhora efetiva após a realização do ato. Não há muito estreitamento cognitivo, já que a pessoas consegue enxergar algumas outras possibilidades que não impliquem em se comportar autodestrutivamente, há desconforto emocional, mas mantém esperança no futuro. Muitas vezes apresenta alienação corporal ou ódio pelo corpo; combinação de intenso estresse, inabilidade de se acalmar e/ou influências de colegas que endossam a autolesão.

 

Características e prevalência

Calcular a prevalência e severidade das autolesões é uma tarefa complicada devido à falta de estudos abrangentes sobre as características populacionais, as causas do comportamento e eficácia de tipos diferentes de tratamento. Apesar disso, é possível afirmar que o fenômeno da autolesão está crescendo cada vez mais em popularidade e intensidade. Note o uso da palavra “fenômeno”, pois o crescimento é tamanho que é assim que está sendo visto pelos grandes estudiosos da área (CRAIGEN, L. M., FOSTER V., 2012; FAGIN, L., 2006; WALSH, B. W., 2006). Essa maior incidência de situações nas quais o autodano está presente não é restrita apenas ao campo da clínica, mas também pode ser percebida nos filmes e documentários que cada vez mais expõem e refletem sobre esses atos, o que mostra que esse é um tema atual e que agora está ganhando visibilidade[2].

Em seu livro, Marilee Strong (2009) lista os principais achados nos estudos sobre a autolesão. Um deles é a pesquisa de Armando Favazza, autor de maior influência no estudo da autolesão no mundo. A partir da prevalência da autolesão em diversas desordens mentais, ele estimou que por volta de dois milhões de norte-americanos se cortam ou se queimam todos os anos, o que é 30 vezes maior que a taxa de tentativas de suicídio anuais e 140 vezes a taxa de suicídios “bem sucedidos” (FAVAZZA, CONTERIO, 1988, apud STRONG, 2009). Mas alguns anos depois, outra pesquisa de Favazza indicou que essa incidência de dois milhões parecia estar muito abaixo da realidade. Numa pesquisa feita com 500 alunos universitários ele encontrou uma prevalência de 12% entre os alunos de pessoas que pelo menos uma vez na vida haviam deliberadamente se cortado, queimado ou feito outro tipo de mal a si mesmo (FAVAZZA, CONTERIO, 1989, apud STRONG, 2009).

Em outra pesquisa Armando Favazza e Karen Conterio (1989) descobriram que a “típica” pessoa que se machuca é uma mulher branca no final dos seus 20 anos e que começou a se machucar aos 14 anos. Nesse período essas mulheres se feriram numa média de 50 vezes, normalmente se cortando, queimando ou batendo. Além disso, os indivíduos que participaram da pesquisa relataram uma diminuição temporária de sintomas como ansiedade, despersonalização e pensamento acelerado. Mais da metade dos participantes descreveu sua infância como “miserável”, 62% sofreram abuso físico ou psicológico na infância e quase 50% sofreu abuso sexual. Além disso, 33% relataram ter perdido por falecimento algum membro importante da família assim como por divórcio. Mais da metade tinha problemas com a sexualidade e detestava alguma parte do corpo. A maioria confessou ter algum outro problema de comportamento, como transtornos alimentares ou abuso de substâncias e 71% considerava a autolesão como um vício.

Muitos comumente se descreveram como se sentindo vazios por dentro, incapazes de expressar emoções em palavras, com medo de se aproximar de outras pessoas e na espera desesperada de que sua dor emocional tenha fim. A grande maioria falou que tinham crescido em famílias cheias de raiva e mensagens duplas, nas quais eles foram aconselhados a ser sempre fortes e a se prevenir para não demonstrar sentimentos.

Já Klonsky e Muehlenkamp (2007) nos dizem que a autolesão é mais comum em adolescentes e jovens adultos do que em pessoas mais velhas, sendo a idade média de início das autolesões entre 13 e 14 anos e que as formas mais comuns incluem o cortar, arranhar, queimar, e bater, mas a maioria dos indivíduos que se machucam usa mais de um método. Além disso, a maioria das pessoas que já se feriu só o fez poucas vezes na vida, o que significa que apenas um número pequeno de pessoas continua com o comportamento de forma mais compulsiva.

Como podemos ver, a incidência da autolesão vem crescendo acentuadamente nos últimos anos e é muito maior do que se imaginava algumas décadas atrás. É um problema que incide sobre pessoas das mais diversas realidades, seja financeira, sexual, faixa etária, regional, etc. Isso significa que não é mais possível falar sobre a autolesão como algo estranho e que infelizmente é praticado por algumas pessoas.

Entre os adolescentes especialmente, a autolesão é agora um fenômeno forte e um problema de saúde pública que deve ser abordado tão seriamente como o abuso de álcool e drogas, apesar da autolesão ser tanto diferente como similar a essas adições clássicas. É, de fato, um dos mais crescentes problemas de saúde mental emergindo não só no mundo ocidental como em qualquer lugar do mundo em desenvolvimento onde algum pesquisador tenha ido procurar por isso. (STRONG, 2009, p. xxviii)

É importante ressaltar que apesar desse novo grupo de pessoas ter características socialmente vistas como mais positivas, ainda assim são um grupo de risco. Sendo assim, a autolesão nesses casos não é algo que deve ser minimizado ou visto como uma tentativa de “chamar atenção” ou “uma moda passageira”. Sempre que uma pessoa toma a decisão radical de ferir seu próprio corpo ou colocá-lo em risco, ela precisa ser levada a sério e ter a sua forma de lidar com estresse seriamente avaliada.

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Autolesões e a família: Como entender esse fenômeno?

Alguns autores como Karen Conterio & Wendy Lader (1999) e Matthew Selekman (2002) vêm tentado compreender por que o comportamento de autolesão tem tido tamanho crescimento, principalmente entre os adolescentes, e levantaram as seguintes hipóteses:

  • O colapso da instituição familiar

Para Conterio e Lader (1999), o colapso da família extensa e o crescente isolamento dos indivíduos tem feito com que cada vez mais se tenha menos com quem contar. Membros da família extensa – avós, tias, tios, primos – raramente podem se disponibilizar a apoiar ou a ajudar os pais a cuidar de seus filhos no dia-a-dia, seja por morar muito longe, ou devido a longas jornadas de trabalho.

De acordo com Selekman (2002), as crianças e adolescentes de hoje estão sofrendo com a falta de tempo com seus pais. Pesquisas indicam que o tempo gasto em conjunto, como uma família, não só é uma marcante característica encontrada em famílias “fortes” (DEFRAIN & STINNETT, 1992; STINETT & O’DONNELL, 1996), mas também que poder contar com os pais para apoio emocional e validação é de extrema importância no desenvolvimento desses jovens, pois isso traz grandes contribuições para sua autoestima e autoconfiança (DOHERTY, 2000).

Porém, não é isso que vem acontecendo. De acordo com um estudo, as mães tendem a ter em média 8 minutos por dia de tempo de conversação com seus filhos adolescentes, e os pais apenas 3 minutos (SPARHAM, ROY & STRATTON, 1995, apud SELEKMAN, 2002, p. 7). Com estatísticas como estas, não é nenhuma surpresa que os adolescentes relatem com frequência que se sentem desconectados de seus pais.

Um estudo que vem para corroborar com a importância da família passar tempo junta é o de Califano (1998), que constatou que as crianças e adolescentes que jantam regularmente com os pais tendem a ter taxas reduzidas ou nulas de uso de maconha. Esse estudo demonstra como simplesmente jantar juntos em família pode impactar profundamente futuras escolhas dessas crianças. Sendo assim pode-se considerar que uma importante missão da Terapia de Família é a de incorporar e valorizar o tempo e os rituais diários no processo terapêutico, com o objetivo de fortalecer os laços familiares e preservar a importância da vida em família.

  • Amadurecimento precoce

Uma forma de se acelerar o amadurecimento dos adolescentes que vem acontecendo hoje é através do processo chamado de parentificação ou parentalização (Breggin, 2000; Minuchin, 1974). Entende-se por parentalização a inversão temporária ou contínua de papéis entre pais e filhos que pode acontecer quando um ou ambos os pais não está podendo assumir sua função parental por motivos como problemas de saúde física ou mental, abuso de substâncias, entre outros. Sendo assim, o filho parental surge como aquele que se identifica mais com a posição parental do que com seus pais e, dessa forma, ele sai do subsistema fraterno e é “promovido” para o subsistema parental.

Uma inversão temporária traz benefícios para o crescimento emocional da criança, pois abre um espaço para que o filho possa experimentar e se identificar com papéis de responsabilidade que possa assumir no futuro. Mas no caso de um processo contínuo de parentalização, o filho parental “pode ter sérios prejuízos no seu desenvolvimento, bem como no seu processo de diferenciação e de separação da família” (SOUZA, 2008, p. 6). Além disso, “pais que exploram os filhos, em papéis parentais, tornam-se para estes, um fardo esmagador, propiciando o desenvolvimento de transtornos patológicos por parte destes” (FALCÃO, 2006, pg. 34).

Muitos pais de família são forçados a assumir uma jornada dupla de trabalho devido a dificuldades financeiras e acabam tendo que recrutar um dos filhos para assumir a responsabilidade de cuidar da casa e dos irmãos mais novos, mas outras vezes, além da posição de ajudante dos pais a criança precisa também assumir a responsabilidade emocional de ser o confidente ou o pacificador de um dos pais, criando uma relação triangulada (BOWEN, 1978).

Para Selekman (2002), o grande problema da parentalização é que esta acaba por sacrificar a infância desses jovens e muitas vezes, as necessidades da criança parentificada de apoio, segurança e validação são deixadas sem retorno, que como vimos anteriormente, parecem ser características comuns da infância e adolescência de pessoas que praticam a autolesão.

  • A segunda família

De acordo com Selekman (ibid.), a busca por conexão faz com que muitos adolescentes, cansados de se desiludir com o fracasso de seus pais em atender às suas necessidades, busquem uma “segunda família”, que pode ser uma gangue de rua, uma banda de punk rock, um grupo de dança ou um grupo que utiliza drogas ou que pratica e incentiva comportamentos de autodano.

Adolescentes recorrem a sua segunda família para preencher o vazio criado por pais muito ocupados para passar tempo com eles. As crianças de hoje estão com raiva porque eles se sentem invisíveis e ignorados pelos pais, que não escutam ou olham para eles. Eles estão desesperados para serem vistos e conhecidos, em vez de programados ou psicologizados. Eles desejam passar tempo juntos. Estamos em uma luta de vida e morte sobre quem irá se conectar com nossas crianças – mães ou pais, ou o envolvente mundo da segunda família (FELDMAN, 2000, p. 16, apud SELEKMAN, 2002, p. 10).

Jovens que se sentem desconectados e frustrados acabam sendo atraídos por grupos de amigos que, assim como eles, sentem-se da mesma forma. Muitas vezes, acabam sendo orientados por pares que lideram um grupo incentivando comportamentos radicais e de grande risco. Mas é importante notar que isso não necessariamente é uma realidade para todos os jovens que recorrem a comportamentos autolesivos. Pelo contrário, muitos desses adolescentes buscam grupos que oferecem suporte e ajuda na luta contra as ALNS.

  • Soluções de “alívio rápido”

Conterio & Lader (1999) acreditam que a baixa tolerância da sociedade atual para lidar com incômodos e a busca de soluções que aliviem rápida e efetivamente qualquer forma de desconforto é uma das possíveis causas para o aumento dos comportamentos de autodano que, como vimos, é muitas vezes uma medida de alívio imediato e palpável para o desconforto emocional.

  • A cultura dos corpos

A mídia está sempre passando a mensagem de que podemos “nos sentir melhor sobre nós mesmos”, modificando a forma, contornos, ou aparência de nossos corpos. Conterio e Lader (1999) consideram que nossa cultura excessivamente focada no cultivo dos corpos ensina que devemos utilizá-lo como nossa principal forma de expressão. Sendo assim, se comunicamos nosso bem-estar através de corpos saudáveis e bem cuidados, talvez pensar em ferir, cortar e queimar a pele como uma maneira de comunicar um mal-estar não seja um passo tão sem sentido para aqueles que praticam o autodano.

 

Conclusão

O estudo da autolesão está cada vez mais em pauta e acredito que isso esteja acontecendo devido à coragem de muitas pessoas de revelarem seus segredos, expondo-se a opinião pública. Por exemplo, nos últimos anos muitas personalidades famosas confessaram para o público em entrevistas ou nas próprias biografias os seus hábitos de se ferir, como: os premiados atores Johnny Depp e Colin Farrell, as atrizes Megan Fox, Angelina Jolie e Christina Ricci, a cantora Demi Lovato, assim como as já falecidas Amy Winehouse e a Princesa Diana, que também sofriam de transtorno alimentar. Todos esses ícones da cultura falam de suas autoagressões como um momento triste e difícil de suas vidas, mas também há aqueles, como os famosos cantores Courtney Love e Marilyn Manson e Sid Vicious (baixista da banda Sex Pistols), que tinham o hábito de se cortar no palco, em frente a milhares de fãs adolescentes, fazendo um trabalho de glorificar e incentivar esse comportamento.

Como vimos, a grande maioria dos casos de autolesão ocorre em pessoas com vidas muito sofridas, que sentem uma dor tão intensa e constante, que transborda os limites do intrapsíquico e alcança o corpo.

O estudo de autolesão deixa claro que corpo e mente estão intimamente ligados. Quando um recebe nutrientes, o outro também se alimenta, da mesma forma que quando um é negligenciado, também faltam nutrientes para o outro. As pessoas que praticam a autolesão são a prova viva de que quando o corpo é assolado, a alma grita, e quando a alma é maltratada, o corpo sangra.

Talvez, numa vida que parece tão sem controle, a autolesão possa ser uma forma de reivindicar o controle sobre sua própria vida. Facas e giletes surgem como “objetos fonte de conforto”. Problemas psicológicos passam a ser problemas de ordem física (de dor emocional passa a dor física) e sentimentos são concretizados em cortes ou hematomas, tornando-se, assim, palpáveis e porque não dizer, menos assustadores.

Outra questão é que parece ser muito difícil para os familiares darem suporte àqueles que praticam a autolesão, uma vez que enfrentam uma situação muito inusitada, que traz perplexidade e comoção, e talvez não lhes permita conceber algum plano de ação. Os familiares sentem grande dificuldade de se aproximar e não sabem muito bem como ajudar.

Minha sensação é a de que talvez seja muito difícil aproximar-se e ajudar pessoas que aparentemente treinaram boa parte de suas vidas a se fecharem e não comunicar verbalmente aquilo que estão sentindo e que estão tão acostumadas com a solidão. Fica uma sensação de que essas pessoas parecem estar acostumadas ao “lado negro da vida” e não conseguem, não querem, ou não podem dar um passo para trás e contemplar as coisas boas que elas têm na vida (família, emprego, namorado, talentos, entre outros).

O que percebi durante todo o meu percurso de pesquisa (bibliográfica e com as famílias que entrevistei e atendi) foi que, por não conseguir compreender o como, quando e por que da autolesão, e por ser algo que ao primeiro olhar parece tão incompreensível, as pessoas ficam sem ação. Talvez percam tanto tempo tentando entender os porquês que não conseguem mobilizar energia para fazer algo, para tentar ajudar, mesmo que isso signifique entrar num jogo de tentativa e erro. Talvez, ao abrir mão do controle as pessoas possam descobrir o poder que existe em apenas estar junto das outras, estar junto na dificuldade.

E da mesma forma que vimos que a família pode ser uma influência no comportamento de autodano, também acreditamos que ela pode ser uma fonte de força para a extinção ou diminuição dessa prática. Sendo assim, acreditamos que um tratamento que englobe a família pode ser de vital importância. É importante usar a poder dos números, usar a família como rede, como força.

Podemos pensar que o autodano, as autolesões, são formas com a qual muitas pessoas conseguem formular suas questões, a forma que usam para comunicar algo de extrema importância. É uma forma de comunicar, é uma linguagem escrita no corpo através de sangue, feridas e cicatrizes.

Nós encontramos ao longo de nossas vidas experiências que oferecem oportunidades para o crescimento pessoal. E mesmo que nunca venhamos nos transformar naquilo que podemos ser, quando podemos experienciar a terapia em um ambiente apoiador e empático, podemos usar nossas dores mais pessoais como catalisadores para a cura e o crescimento.

A nossa maneira, como terapeutas de família, de trazer a mudança é através do diálogo, fazendo com que cada um se veja como autor da sua narrativa. Para isso, criamos um espaço reflexivo sobre aquilo que está sendo vivenciado e para pensar sobre nossas atitudes e escolhas, nossa visão sobre quem somos e quem podemos vir a ser, assim como pensar em novas histórias que gostaríamos de contar sobre nós mesmos. Nosso objetivo é construir com nossos pacientes algo novo, algo diferente, novas narrativas que não passem mais pela linguagem da dor e do sofrimento.

 
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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[1] Tradução livre da autora a partir do termo Self-injurious behavior ou SIB (CRAIGEN, L. M., FOSTER V., 2012).

[2] Como nos filmes Mein erster richtiger Freund (Christine Lahti, 2001), Thirteen (Catherine Hardwicke, 2003), 28 Days (Betty Thomas, 2000), Prozac Nation (Erik Skjoldbjærg, 2001), Secret Cutting (Norma Bailey, 2000), Girl, Interrupted (James Mangold, 1999), Taboo: Strange behavior (National Geographic Video, 2012) e Dans ma peau (Marina de Van, 2002).

2 Comentários

  • ALICE MENEZES

    Tema bastante desconhecido ainda, trabalho interessante e elucidativo. Parabéns!

  • Maria Luisa do Nascimento

    Obrigada.
    Aprendi muito com vocês.
    Também sou psicologa dessa linha de pensamento . E atendo adolescentes com esses problemas.
    Abraço.
    Maria Luisa.

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