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Casamento: os desafios de tornar-se um casal

“O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção” (Saint Exupèry)

 

Dizem que tornar-se um casal é um dos maiores desafios do ciclo vital familiar, o que vai imensamente contra a crença popular e extremamente romântica do casamento como o momento mais feliz e alegre da vida, no qual duas almas se encontraram para formar algo mais completo.

O casamento tende a ser erroneamente compreendido como uma união de dois indivíduos, mas na verdade, o que ele realmente representa é a modificação de dois sistemas inteiros e uma sobreposição que gera o desenvolvimento de um terceiro subsistema. Ou seja, a modificação da família de origem de cada parte do casal e a criação de uma nova família.

Sendo assim, muito mais que encontrar uma alma gêmea, casar significa ter que renegociar diversas questões que foram antes decididas individualmente ou pré-estabelecidas pela família de origem. Questões como: o que, como, onde e a que horas comer, qual religião seguir, como administrar o dinheiro, quando tirar férias, quando e quantas vezes na semana fazer sexo, onde passar as festas de fim de ano, etc. Após o casamento, o recém-formado casal precisa conversar e resolver como um par tais questões não somente entre si, mas com seus familiares e amigos.

Outra tarefa do casamento é que o sistema familiar precisa se abrir para um novo membro, que agora faz parte oficialmente da família. Algumas famílias são muito fechadas em si mesmas e terão grande dificuldade de abrir espaço para um novo membro, da mesma forma que este novo membro pode ter dificuldades de se fazer incluir porque ele já está demasiadamente emaranhado com a sua família de origem.

Este é o momento em que aparecem aqueles famosos triângulos como marido x esposa x sogra, uma vez que é muito mais fácil detestar a nora pelas falhas do filho do que admitir os fracassos na relação com o próprio filho. Assim como para a esposa é mais fácil detestar a sogra do que sentir raiva do marido por ele não ser capaz de colocar limite em sua mãe.

Parentes por afinidade são os maiores e mais bem-sucedidos bodes expiatórios da história! Porém, o preço que todos pagam quando isso acontece é o fracasso em se obter uma intimidade familiar real, uma vez que as questões jamais poderão ser resolvidas enquanto outros membros são trazidos para manejar os relacionamentos por alguém.

Muitos desses padrões e conflitos começam a aparecer a partir da decisão do casal de se casar, já que essa decisão serve de estopim para as diversas mudanças que vão mexer com todas as peças do sistema familiar.

 

A Cerimônia do Casamento

Os casamentos deveriam ser rituais de transição para facilitar o processo familiar. Como tal, eles são extremamente importantes para assinalar a mudança de status dos membros da família e a modificação na organização familiar. (McGoldrick, 1995, p. 195)

A organização da cerimônia do casamento reflete o processo familiar e de um ponto de vista clínico, oferece muitas dicas de quem são as pessoas que estão apresentando dificuldade para se adaptar ao novo estágio do ciclo. Sendo assim, podemos usar as divisões de responsabilidades (como quem paga e/ou ajuda na organização do evento, ou quem se nega a pagar e/ou ajudar), as escolhas de quem será convidado ou não e a energia emocional dos participantes (quem se empolga, quem se aborrece, quem se sente deslocado) como uma ótima metáfora do processo familiar e do quão prontos os membros da família estão para realizar essa mudança.

É inevitável que alguns membros sintam mais do que os outros o impulso das forças de mudança. Normalmente a pessoa com dificuldade é aquela que centralizou sua vida em algum tipo de dependência emocional em relação à pessoa que está casando (como por exemplo, no caso de um filho que é responsável por manter o relacionamento dos pais vivos).

Os casamentos também podem ser sintomáticos do processo familiar uma vez que os estresses do período de preparativos da cerimônia podem fazer diversas rachaduras aparecerem. O que faz com que muitos casais que têm dificuldades com seus pais com relação à cerimônia do casamento vejam esse período apenas como algo a “aturar” até casar e ir embora. No entanto, esse caminho não leva a nenhuma mudança. Pelo contrário, ele apenas garante a transferência dessa intensidade emocional para a nova família que está se formando.

A situação ideal, porém, a mais rara, é a que os parceiros se tornaram independentes de suas famílias de origem antes do casamento e mantêm com eles laços estreitos e afetuosos. Quando isso acontece, o casamento servirá para que a família toda compartilhe e celebre a mudança de status do novo casal.

Mas quando o ideal não acontece, pode-se usar o rito de passagem do casamento como uma forma de se redirecionar o foco: um momento para aprender sobre a família e revisar laços familiares, aproveitando que os sistemas de relacionamento familiar parecem suavizar-se nos meses em torno de tais eventos, sendo possível abrir ou fechar portas entre os vários membros da família com menor esforço.

Como veremos a seguir, a falha em lidar com estas questões acaba por estender as dificuldades que os cônjuges têm com suas próprias famílias para o relacionamento amoroso, mas quando os indivíduos têm a oportunidade de usar o rito de passagem de um casamento como experiência de cura e crescimento, eles deixam em casa muita bagagem desnecessária.

 

Depois do sim…

Uma questão que costuma trazer conflitos para o casamento é a confusão que muitos casais fazem entre “fusão” e “intimidade”.

Como vimos no texto anterior, todo relacionamento precisa equilibrar as forças que nos levam a pertencer e as que nos levam a nos distanciar. O que muitas vezes acontece é que os cônjuges confundem essa necessidade de estar próximo e o fato de sermos inerentemente incompletos na nossa condição de seres humanos, com a necessidade de estar fundido com o outro, criando um par unido e inseparável. Sob o pretexto de estar próximo e de estar num relacionamento íntimo com outrem, esses casais acabam usando sua relação como uma forma de completar o seu eu e como fonte de autoestima.

Mas por que isso acontece?

A resposta para essa pergunta muitas vezes gira em torno dos relacionamentos com sua família de origem. O fracasso em se abrir e aceitar a qualidade diferente da outra pessoa é uma consequência da pessoa não ter conseguido se tornar emocionalmente independente de seus pais. Ou seja, só é possível construir um relacionamento baseado em parceria e na liberdade de ser quem realmente é quando elas foram capazes de resolver seus relacionamentos com seus pais. Aqueles que ainda estão presos nos conflitos familiares terão maiores chances de depositar sua autoestima na relação amorosa e de não aceitar diferenças no(a) parceiro(a).

E em nome de manter a ilusão da concordância, alguns casais podem gerar as mais diversas distorções na comunicação. E quanto mais as reações dela são uma resposta as dele, haverá menos flexibilidade no relacionamento e a comunicação ficará cada vez mais distorcida nas áreas emocionalmente carregadas. Sendo assim, haverá a tentativa de esconder um do outro tudo que pode chatear, magoar, incomodar ou envergonhar. Em outras palavras, “os casais podem ficar amarrados numa teia de atitudes evasivas e ambíguas, porque nenhum deles ousa ser franco com o outro, por medo de que as coisas não deem certo” (McGoldrick, 1995, p. 191). Afinal, se a minha autoestima está depositada na minha relação e a minha relação dá errado, o que isso diz de mim? Diz que eu sou um fracasso! Então é melhor ficar quieto no meu canto e não expor nada que possa desagradar para não correr o risco de perder meu relacionamento.

As mensagens entre eles podem ficar cada vez mais encobertas, na medida em que, cada vez mais, definem o seu próprio valor através do relacionamento. Dessa forma, o conteúdo da comunicação acaba ficando cada vez mais obscurecido pela necessidade do casal de validar a si próprio através do cônjuge e da relação.

Quando nenhuma das partes teve a oportunidade de pensar individualmente sobre o que desejam da vida, eles acabam voltando-se para o outro na expectativa de realizar as suas necessidades insatisfeitas. Isso gera ressentimento e desapontamento, já que dificilmente o outro será capaz de corresponder a tamanha expectativa, ficando assim uma sensação de ser inútil e insuficiente. E é nesse momento que começa o jogo de personalização do problema: casais confluentes (que estão fusionados) tem a tendência de definir seus problemas dentro do relacionamento e dessa forma, a culpabilizar o cônjuge ou a si próprio pelas dificuldades da relação. E quanto mais dura uma relação, maior é a probabilidade desse padrão acontecer.

Resumindo, quando um cônjuge fica excessivamente envolvido na resposta do outro, ambos acabam presos numa teia de fusão e incapazes de funcionarem sozinhos.

Mas como, então, funciona um casal saudável?

Para responder a essa pergunta, podemos voltar a frase de Saint Exupèry no início do texto: “O amor não consiste em olhar um para o outro, mas sim em olhar juntos para a mesma direção”. Um casal funcional é aquele formado por dois indivíduos comprometidos a permanecer juntos por um extenso período de tempo e com a ideia de se envolver em tarefas conjuntas, como criar um lar e futuramente uma família junta. Além disso, é um casal que possui fronteiras fluidas e flexíveis entre os indivíduos e outros sistemas ao redor (família extensa, amigos, trabalho, etc.). Eles possuem “um propósito comum, solidariedade, coesão e responsividade, além de respeito pela separação e “unicidade” de cada pessoa. Um ritmo gracioso predomina – da união e intimidade para a autonomia individual” (ZINKER, 2001, p. 77).

Acreditamos que muitos dos problemas dos casais falam mais de suas relações com sua família de origem do que do casal propriamente dito. Sendo assim, na terapia muitas vezes encorajamos nossos pacientes a trabalhar primeiramente na resolução desses relacionamentos, para aí sim se concentrar nos problemas de comunicação do casal. Ajudamos o casal a repensar diversas questões que antes poderiam ser tomadas como certas, a pensar que tipo de relacionamento desejam ter e a trabalhar possíveis ansiedades de separação e/ou autonomia. Ajudamos o casal a encontrar o seu ritmo e a dançar a música que eles escolheram para si.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

DAHL, M. S. In Sickness and in Wealth: Psychological and Sexual Costs of Income Comparison in Marriage. Aalborg University, Washington University in St. Louis.

MCGOLDRICK, M. A União das Famílias Através do Casamento: O Novo Casal. In: CARTER, B., MCGOLDRICK, M. As Mudanças no Ciclo de Vida Familiar: Uma Estrutura para a Terapia Familiar. Porto Alegre: Artmed, 1995, p. 184-205.

STUTZER, A., FREY, B. S. Does marriage make people happy,or do happy people get married? The Journal of Socio-Economics, Switzerland, 35, 2006, p.326–347.

WILSON, C. M., OSWALD, A. J. How Does Marriage Affect Physical andPsychological Health? A Survey of the Longitudinal Evidence. IZA, 1619, Maio 2005.

ZINKER, J. Intervindo nos sistemas de casais. In: ZINKER, J. A busca da elegância em psicoterapia: Uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001, p. 185-221.

ZINKER, J. Sistemas: Casais e Famílias como Fenômenos Holísticos. In: ZINKER, J. A busca da elegância em psicoterapia: Uma abordagem gestáltica com casais, famílias e sistemas íntimos. São Paulo: Summus, 2001, p. 67-85.

1 Comentário

  • M M Schweitzer

    Muito bom o seu texto Juliana. Me lembrou muito o conceito de sombra, de jung.

    “Sombra, em psicologia analítica, refere-se ao arquétipo que é o nosso ego mais sombrio. É, por assim dizer, a parte animalesca da personalidade humana. Para Carl Gustav Jung, esse arquétipo foi herdado das formas inferiores de vida através da longa evolução que levou ao ser humano. A sombra contém todas aquelas atividades e desejos que podem ser considerados imorais e violentos, aqueles que a sociedade, e até nós mesmos, não podemos aceitar. Ela nos leva a nos comportarmos de uma forma que normalmente não nos permitiríamos. E, quando isso ocorre, geralmente insistimos em afirmar que fomos acometidos por algo que estava além do nosso controle. Esse “algo” é a sombra, a parte primitiva da natureza do homem. Mas a sombra exerce também um outro papel, possui um aspecto positivo, uma vez que é responsável pela espontaneidade, pela criatividade, pelo insight e pela emoção profunda, características necessárias ao pleno desenvolvimento humano. Devemos tornar a nossa sombra mais clara possível.Procurando um trabalho partindo do interior para o exterior. A sombra é frequentemente projetada em outra pessoa, que aparece ao indivíduo como negativa.”

    Ou seja, apenas quando olhamos para dentro na busca de solucoes, que poderemos finalmente ver o outro nao como a fonte dos nossos males, mas sim como um aliado para nos livrar deles.

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