Saindo da casa dos pais: uma nova fase do ciclo vital

Esse texto é baseado numa palestra que eu apresentei com três colegas minhas (Cassia Melissa, Jacqueline Victoriense e Livia Pinheiro) na XVI Jornada de Psicologia do Centro de Gestalt Terapia Sandra Salomão em fevereiro de 2012.

 

Resolvi falar sobre esse assunto por notar, na minha prática clínica, como a saída da casa dos pais apresenta grande dificuldade para muitos adultos jovens (aqueles entre 20-30 anos, ou até um pouco mais). Tanto na clínica individual, como na de família esse tema parece ser bastante recorrente. Muitas vezes essa dificuldade passa por uma questão financeira, que obviamente temos que encarar como um dado de realidade! Todo mundo sabe que a vida está custando muito caro e é cada vez mais difícil de conseguir emprego, que cada vez mais as pessoas precisam se especializar, etc. Mas percebo que muitas vezes essa dificuldade é mais uma questão emocional.

Mas o que eu quero dizer com isso?

Antes vou fazer uma pequena pausa para explicar o que é o ciclo vital, que nada mais é do que algumas fases pela qual as famílias passam durante o seu desenvolvimento. As fases são: (1) Saída da casa dos pais; (2) Casamento; (3) Nascimento dos filhos; (4) Filhos em idade pequena; (5) Adolescência; (6) Saída dos filhos de casa; (7) Idade madura; e (8) Velhice. Cada uma dessas fases representa um momento de estresse familiar, e são momentos no qual a família inteira precisa se readaptar e assumir novos papéis. Além disso, cada mudança no ciclo vital também pede que os membros da família recontratem as suas relações.

Muitas pessoas encontram dificuldade em se separar emocionalmente de suas famílias. Murray Bowen falou de duas forças opostas que levam as pessoas a se conectar com as outras e ter a sensação de pertencimento (a vinculação), ou que levam a pessoa a se ver como um ser autônomo e independente (a diferenciação). O interessante é que haja um equilíbrio entre essas duas forças, mas muitas famílias pendem mais para um lado ou para o outro.

Da infância em diante, a criança é exposta a muitas coisas, incluindo a emotividade e a subjetividade daqueles à sua volta. Numa família bem diferenciada, na qual a pressão da intimidade familiar é baixa, uma criança tem espaço para pensar e agir por si mesma. Os membros da família podem se vistos como pessoas com papéis em sua vida, mas que, ao mesmo tempo são indivíduos distintos e separados. Portanto, a autoimagem da criança não é formada em reação às ansiedades e carências emocionais dos outros – ela pode crescer para ser parte da família, ainda que separada dela. Enquanto isso, nas famílias pouco diferenciadas, a criança funciona em reação aos outros, ou seja, a pressão para a intimidade familiar acontecer não permite a criança se desenvolver como um indivíduo separado que pode pensar e agir por si mesma, e ela cresce para ser um reflexo de sua família.

A capacidade para lidar com o estresse (que como eu falei acima, é característico das fases de mudança no ciclo vital) é uma função da diferenciação: quanto mais bem-diferenciada a pessoa, mais tolerante ela é e mais flexíveis e seguros são seus relacionamentos. Quanto menos bem-diferenciada a pessoa, menos estresse ela requer para produzir sintomas. Dessa forma, a capacidade para diferenciação existente em uma família é muito importante nesse momento da saída do jovem adulto da casa dos seus pais, pois ela vai determinar se os membros vão, ou não, vê-la como uma ameaça para suas relações, e mais importante, se será possível que essa saída seja feita de forma gradual: a relação mudando de um padrão filho-para-pais para um padrão adulto-para-adulto.

Mas o que acontece na maioria das vezes não é isso. Muitas pessoas saem da casa dos pais através de um rompimento emocional e não pela resolução madura dos laços familiares. Dessa forma, elas acabam levando para o mundo e para suas novas relações, os mesmos padrões imaturos com os quais elas se relacionam com os seus pais, e a saída da casa dos pais dá apenas uma ilusão de maturidade.

Sendo assim, no estágio da saída de casa, a tarefa inicial para os adultos jovens é se separarem de suas famílias sem romper ou fugir reativamente para um refúgio emocional substituto; e para os pais desses adultos a tarefa é deixá-los ir, e permitir que eles assumam o controle de suas próprias vidas. Sendo importante ressaltar que é nessa mesma fase que, em muitos casos, os pais também têm que lidar com as mudanças em seus relacionamentos com seus próprios pais, que já estão na fase da velhice e podem precisar de um apoio crescente (virando, assim, cuidadores dos seus próprios pais).

Para Aylmer (1995) são diversas as mudanças e negociações pelas quais os jovens adultos precisam passar nessa época da vida que envolvem diversas esferas da vida. Na individual, eles precisam desenvolver uma definição de seu eu como adulto. Na esfera familiar, acordos devem ser feitos para que a família seja capaz de tolerar a independência, sem perder a conexão, além da mudança de status (quando os filhos viram adultos, todas as gerações pulam para o próximo nível do ciclo vital, e os pais precisam perceber que estão envelhecendo e viver a fase do ninho vazio); Na esfera profissional o jovem adulto precisa lidar com a ansiedade de ingressar numa carreira e lidar com questões de competitividade e expectativas de familiares. E por ultimo, temos a esfera da intimidade, que parece ser a que mais sofre nesse período. Aqui o ideal é que o indivíduo busque relacionamentos em que possa compartilhar o eu, em vez de buscar o eu nos relacionamentos.

E por ultimo, mais não menos importante, o momento em que o jovem adulto resolve sair de casa é aquele no qual ele precisa escolher emocionalmente: (1) O que ele quer levar da sua família de origem; (2) aquilo que ele deixará para trás; e (3) aquilo que ele irá criar sozinho.

Tendo em vista todos esses desafios, não é para menos que essa fase seja tão assustadora, e muitos tentem fugir dela o máximo possível, enquanto outros a apressam para se “livrar finalmente dos pais”. Nesses casos a terapia pode ser uma ajuda muito útil e vai cuidar principalmente das relações entre o jovem adulto e sua família. É interessante que os membros da família possam renegociar seus laços emocionais, de uma forma que faça mais sentido para todos nesse novo momento da vida, encontrando um novo equilíbrio entre a autonomia e o apego, para que assim, o jovem possa se desenvolver livremente e conquistar o mundo de acordo com as suas expectativas e ambições.

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

AYLMER, R. O lançamento do jovem adulto solteiro. In: CARTER, B., McGOLDRICK, M. (Org.). As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma estrutura para a terapia familiar. 2ª ed. Porto alegre: Ed. Artmed, 1995, p. 169-183.

CARTER, B., McGOLDRICK, M. As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma estrutura para a terapia familiar. In: CARTER, B., McGOLDRICK, M. (Org.). As mudanças no ciclo de vida familiar: Uma estrutura para a terapia familiar. 2ª ed. Porto alegre: Ed. Artmed, 1995, p. 7-18.

NICHOLS, M. P., SCHWARTZ R. C. Terapia Familiar Boweniana. In: Terapia familiar: conceitos e métodos. 1ª ed. Porto Alegre: Ed. Artmed, 1998, p. 309-339.

 
By | 2018-02-14T16:26:36+00:00 dezembro 2nd, 2015|Ciclo Vital, Fases da Vida, Independência|