Você procura o amor ou o amor procura você?

Uma das principais dificuldades que todos nós devemos nos confrontar diz respeito a forma e/ou maneira com a qual iremos nos relacionar com os nossos objetos amorosos. Muitas das nossas angústias e dificuldades do viver referem-se ao sentido que seremos capazes de extrair de nossa história, da qual, ainda que consideremos aqueles que priorizem outros objetivos mais pragmáticos, tais como a carreira, estima e aquisições materiais, temos no amor um de nossos principais alentos.

Os benefícios de se estar amando são diversos, tais como constaram os pesquisadores Andreas Bartels e Semir Zeki (link). Alguns desses benefícios não requerem o selo de um pesquisador e de certa forma são meio que de conhecimento geral. São comuns os comentários de que a pessoa apaixonada está com uma “energia diferente”, com brilho nos olhos, mais disposição e de forma geral mais feliz. No entanto, ainda que encontremos no amor uma série de características que poderiam lhe conferir o status de um verdadeiro elixir da juventude, o amor não é para os fracos. Isso porque, como já bem nos advertia Freud, “…nunca nos achamos tão indefesos contra o sofrimento como quando amamos, nunca tão desamparadamente infelizes como quando perdemos o nosso objeto amado ou o seu amor. ”

Frente as dificuldades de se estar amando e ser amado, muitos sem perceber acabam por desvirtuar o sentido da coisa. Entram nos relacionamentos com uma determinada mentalidade e atitudes que a longo prazo podem vir a minar o relacionamento descambando naquilo que os psicólogos chamam de profecias auto realizadoras, que é quando a própria pessoa age de uma forma a ocasionar aquilo que supostamente gostaria de evitar, formando assim um ciclo vicioso.

Um exemplo clássico, na esfera dos relacionamentos, seria uma pessoa que devido a inseguranças pessoais age de uma forma a estar sempre desconfiando do(a) parceiro(a), tornando o clima geral do relacionamento tenso, independentemente das garantias e atitudes que o parceiro(a) possa vir a ter que contradigam suas crenças. O que poderia gradualmente, devido ao desgaste, “empurrar” o parceiro para uma relação extra conjugal, “confirmando” a crença inicial da pessoa, sem este(a) no entanto perceber que foi ele(a) quem talvez tenha contribuído para isso, auto concretizando sua profecia. É como já dizia Jung, “O que não enfrentamos em nós mesmos acabaremos encontrando como destino.”

Muitas dessas atitudes, expectativas e crenças das quais as pessoas ingressam num relacionamento referem-se não àquela pessoa ali na nossa frente, mas sim aos nossos relacionamentos prévios, sejam eles decorrentes dos valores do ambiente ao qual crescemos ou mesmo relacionamentos amorosos anteriores. É nesse sentido que a terapia se torna uma peça fundamental para ajudar as pessoas a se conhecerem melhor e instrumentalizá-las a quebrar certos ciclos viciosos.

No entanto, independentemente de questões pessoais e idiossincráticas, a atitude das pessoas para com os relacionamentos parece se encaixar em um dentre dois grandes grupos, isso em relação ao que nós psicólogos chamamos de “teorias implícitas de relacionamentos”.

Segundo o pesquisador Reymond Knee (link), estes dois grupos se dividiriam entre aqueles acreditam em destino e os que acreditam no trabalho e esforço. Reymond então desenvolveu um questionário para tentar identificar a qual tipo as pessoas se enquadram (o questionário completo utilizado pelos pesquisadores consiste numa versão com um total de 22 perguntas. Abaixo segue uma versão reduzida com um total de 8 perguntas, estas escolhidas pelo próprio Knee como sendo as mais representativas).


Questionário de mentalidade de relacionamentos de Raymond Knee

Utilizando a escala de 1 à 7, classifique a sua concordância em relação as afirmações abaixo de acordo com a seguinte lógica.

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Tente ser honesto; você apenas irá ter uma pontuação válida se responder da forma mais honesta possível.

  1. Parceiros de relacionamento em potencial ou são compatíveis ou não são.
  2. Um relacionamento bem-sucedido é em grande parte uma questão de achar um parceiro compatível desde o começo.
  3. Parceiros de relacionamento em potencial são destinados a darem certo ou errado.
  4. Relacionamentos que não começam bem irão falhar inevitavelmente.
  5. O relacionamento ideal se desenvolve gradualmente com o tempo.
  6. Um relacionamento bem-sucedido evolui através de trabalho duro e resolução de incompatibilidades.
  7. O sucesso de um relacionamento é em grande parte uma questão de aprender a resolver conflitos com o parceiro.
  8. Desafios e obstáculos num relacionamento podem fortalecer ainda mais o amor.

Pontuação:

Para saber qual o seu grau de crença no destino, some a sua pontuação dos primeiros quatro itens (1-4). Esse será um número entre 1 e 28.

Para saber qual o seu grau de crença no crescimento, some a sua pontuação dos últimos quatro itens (5-8). Esse será um número entre 1 e 28.

Então, agora você possui uma pontuação para destino e crescimento, mas o que ela significa?

Para o destino:

  • Uma pontuação entre 1 e 15 = você é um romântico irremediável.
  • De 16 a 19 = na média.
  • 20 e acima = você é bastante cético quanto a existência de almas gêmeas.

Para o crescimento:

  • Uma pontuação entre 1 e 21 = você acha que praticamente quaisquer questões de um relacionamento podem ser resolvidas.
  • De 22 a 25 = na média.
  • 26 e acima = você não acredita muito que relacionamentos possam mudar.

Discussão sobre resultados e a questão dos diferentes tipos

A primeira coisa que se destaca quando observamos o questionário de Knee é que o mesmo é estruturado de uma forma a quase que sugerir uma antinomia entre os dois tipos, como se um determinado tipo fosse meio que um espelho invertido do outro, e vice-versa. Isso fica ainda mais evidente quando levamos em consideração as características que geralmente são atribuídas a cada um deles.

Por exemplo, dentre as principais características/atitudes do tipo que acredita no destino, estes tenderiam a acreditar em conceitos tais como uma alma gêmea, perdida aí fora dentre as demais 7 bilhões de pessoas no planeta, a sua procura. Para esse tipo, se ele(a) ainda não encontrou o amor, ou melhor, se o amor não encontrou ele(a), se teve experiências que não se concretizaram ou vingaram, é porque não era a pessoa certa. Segundo o psicólogo Bjarne Holmes, para tais pessoas, se um relacionamento começa a demonstrar problemas e dificuldades, estas tenderiam a interpretar estes como indício de que “então não era mesmo para ser”. Um exemplo típico, ainda que extremado, do “quadro geral” dessa mentalidade seria a de que caberia ao outro “intuir” nossas necessidades, e que termos que nos desgastar nos fazendo entender seria um indício de falta de sintonia, de que então “não era para ser”.

Já o outro tipo, dos que acreditam no trabalho e esforço entenderiam, tal como uma velha citação que rodou no facebook a um tempo atrás, que “aquilo que é colorido e se encaixa é lego e não amor”. Que dificuldades, conflitos e desentendimentos são etapas inerentes dos relacionamentos (e da vida de forma geral), e que os mesmos não são indícios de uma suposta incompatibilidade intransponível, mas pelo contrário, que sua superação pode vir a fortalecer ainda mais o relacionamento e a confiança mútua (ao transmitir para ambas as partes a sensação de que suas diferenças são acolhidas e não rejeitadas).

Quanto a aparente antinomia dos dois grupos, isso é algo que não deveria surpreender pois de fato as pessoas tendem a formar suas personalidades entorno de certos “núcleos”, que não apenas tendem a integrar aquilo que lhe é semelhante como a se contrapor aquilo lhe é diferente. Pois como já dizia Freud, a coesão de um grupo se faz não apenas por seus elementos internos, mas também pelos inimigos em comum.

Nesse sentido, o questionário de Knee serve como uma excelente ferramenta para identificar qual o nosso tipo prevalente. No entanto, reconhecer que existe certa contrastação entre os dois grupos não necessariamente nos predispõe a sustentar, ou reforçar, nós mesmos, a barreira que parece existir entre eles. Com isso quero dizer que tais diferenças não necessariamente precisam ser auto excludentes, mas sim, e essa é basicamente a finalidade desse artigo, que estes podem ser complementares.

Com isso tocamos então no segundo ponto que se destaca quando analisamos o questionário de Knee, principalmente, no que se refere a forma como este é empregado por outros psicólogos e demais pesquisas e artigos sobre o tema. Sendo os dois grupos estruturados/concebidos de forma antagônica, não é de se surpreender que os mesmos sejam dispostos/ordenados segundo o binômio saúde-doença. Consequentemente, também não é de se surpreender encontrarmos uma certa predileção dentre os diversos pesquisadores sobre o tema por um tipo em detrimento do outro.

Quando comparamos as duas breves descrições que fiz acima de ambos os tipos, acredito ser evidente um certo favorecimento ou tendenciosidade para o lado do segundo grupo, ou seja, daqueles que acreditam no trabalho. De modo geral, é mais ou menos esse sim o posicionamento da grande maioria dos psicólogos, por uma série de razões que não convém explicitar neste artigo (para uma possível explicação dessa questão, recomendo ler o seguinte livro do psicólogo e professor de Harvard Steven Pinker).

Apenas para citar um exemplo de tal tendenciosidade pelos psicólogos, não necessariamente relativo a questão dos relacionamentos, mas que ainda assim reflete tal ponto, uma vez o psicoterapeuta italiano Paolo Quattrini disse que: “Só faz terapia quem confia mais em si mesmo do que no destino. Quem acredita mais no destino não tem porque fazer terapia, pois não há nada a ser feito”.

Voltando então ao nosso tópico das diferentes mentalidades de relacionamento, em um artigo para o site da psychology today, Holmes fez uma pequena lista de conselhos referentes ao tema (link). Nesta constava os seguintes itens:

  • Se pergunte que tipo de visão de vida você possui. Você acredita que as coisas são predestinadas seja para acontecer ou não; ou você acredita que coisas acontecem como consequência do quanto de esforço e trabalho duro você coloca nelas? Tente discernir entre o que você pode ou não controlar. Entenda que para se tornar realmente bom em qualquer coisa (incluindo em relacionamentos), milhares de horas de prática são necessárias.
  • Comece a olhar para “trabalhar pelo relacionamento” como sendo algo romântico (ao invés da noção de que romance e esforço são antagônicos): Talvez não exista uma alma gêmea predeterminada esperando para ser encontrada. Dito isso, com o tempo, você certamente pode vir a sentir que uma pessoa específica como sendo sua alma gêmea. Esse sentimento vem do trabalho investido num relacionamento, compromisso, e aprendendo a conhecer seu parceiro muito bem.
  • Esteja ciente da falácia da alma gêmea. Pessoas que acreditam no destino também são mais inclinadas a acreditar que seus parceiros podem ler a sua mente sem nenhum tipo de comunicação de suas necessidades – se ele é a minha alma gêmea, ele irá entender o que eu preciso – uma suposição não consistente com a ciência dos relacionamentos; ou que o sexo num relacionamento será sempre bom – evidências na verdade mostram que o sexo irá mudar com o relacionamento e que uma “boa” vida sexual requer para prática contínua para florescer.

Ainda que os conselhos de Holmes pareçam todos coerentes, não devemos perder de vista a outra dimensão dos relacionamentos dos quais seus conselhos parecem se esquivar. De certa forma, tudo se dá como se o esforço e o trabalho fossem o único viés “saudável” para os relacionamentos e que a crença numa certa predestinação fosse em grande parte a responsável pelo fracasso dos mesmos. Tal “ideologia” pode, a princípio, parecer fazer total sentido, mas quando “esticamos” o argumento para testar sua resistência, começamos a perceber melhor as suas falhas. Para tanto basta nos perguntarmos, então, como forma de exercício mental, se todos os relacionamentos podem dar certo (logo, que aqueles que não deram foi por puramente falta de esforço das partes envolvidas), ou se ainda que trabalho e esforço sejam uma pré-condições para a sua manutenção, se ainda assim, os mesmos não requerem um mínimo de afinidade.

Quando colocamos as coisas nesses termos, não mais como predestinação, mas sim como afinidade, poderemos nos perguntar até que ponto devemos dedicar nossos esforços, ou melhor, até que ponto nossos esforços não seriam sim uma compensação da falta de afinidade.

Muitos autores quando o assunto é esse tendem a empregar o termo “romântico” ou “romantismo” de forma pejorativa, como sinônimos da mentalidade do destino, do tipo que acredita que “apenas o amor basta” ou que o “amor supera tudo” (e que se há conflito ou se não superou é porque não havia verdadeiramente amor). Ironicamente, não seria uma ideia igualmente romântica a de que todos os relacionamentos podem dar certo com o devido esforço? Não seria essa, similar a superestimação do amor, inversamente, uma superestimação de nossos esforços e capacidades, ou mesmo inclinação, de que não necessariamente “com o amor tudo é possível”, mas que “com o devido esforço tudo é possível”?

Obviamente que a questão é mais complexa e menos preto e branco do que meramente uma distinção entre uma mentalidade de destino versus outra de trabalho, e que ambos possuem sua função dentro do quadro geral do que viria a ser um relacionamento “saudável”, pois afinal, como já bem dizia Buda, “o melhor caminho é sempre o do meio”. Destino e trabalho são pólos dentro de um espectro que não são de todo antagônicos, mas sim complementares, ou para utilizar uma terminologia junguiana, são um complexio oppositorium, e que enquanto tais, tem muito a apreender um com o outro. Afinal de contas, o esforço e o trabalho adquirem sentido apenas quando há identificação. Caso contrário, trabalharíamos apenas para provar um ponto, de que mesmo a contragosto somos capazes de empreender e levar a termo o trabalho. Mas se for para ser assim, então para que trabalhar?

Ao meu ver então, questionários como os de Knee devem ser utilizados com cautela. Não como um tipo de diagnóstico, no caso, de se você se encontra ou não em um determinado polo positivo (está tudo bem com você) ou negativo (tem algo de errado com você), mas sim, como um norteador de qual tipo de mentalidade é mais predominante em você, e correlatamente, qual seria interessante que você se dedicasse para desenvolver um pouco mais e com isso ter uma vida emocional mais plena. Seus relacionamentos agradecem.

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  REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BARTELS, A., ZEK, S. The neural basis of romantic love. NeuroReport, v. 11, n. 17, Nov. 2000. Disponível em: <http://www.vislab.ucl.ac.uk/pdf/NeuralBasisOfLove.pdf> Acesso em: nov. de 2015. HOLMES, B. Why You Should Stop Searching for Your Soul Mate. Disponível em: <https://www.psychologytoday.com/blog/love-the-numbers/201202/why-you-should-stop-searching-your-soul-mate>. Acesso em: nov. de 2015. KNEE, C. R., PATRICK, H., LONSBARY, C. Lonsbary. Implicit Theories of Relationships: Orientations Toward Evaluation and Cultivation. Personality and Social Psychology Review, v. 7, n. 1, p. 41-55, fev. 2003. Disponível em: <http://irisproject.eu/dokumente/2007101419382.pdf>. Acesso em: nov. de 2015. LE, B. Do You Pursue Love or Does It Pursue You? Disponível em: <http://www.scienceofrelationships.com/home/2011/3/14/do-you-pursue-love-or-does-it-pursue-you.html>. Acesso em: nov. de 2015. ______ Do You Believe in Soulmates? Is Love Like a Garden? Take the Quiz. Disponível em: <http://www.scienceofrelationships.com/home/2011/5/6/do-you-believe-in-soulmates-is-love-like-a-garden-take-the-q.html>. Acesso em: nov. de 2015.
By | 2018-02-03T18:50:41+00:00 dezembro 23rd, 2015|Amor, Relacionamentos|