A má fama do feminismo

Vamos começar com duas perguntas relativamente simples (ou não)?

(1) Você se considera ou não um(a) feminista?

(2) Um(a) feminista é alguém que acredita em igualdade social, política e econômica entre os sexos. Você se considera ou não um(a) feminista?

Se você é como muitas das pessoas de um estudo recente conduzido por Barry Kuhle e daqueles de um questionário aplicado pela CBS News em 2005, então a sua resposta para a questão 1 apresentará pouca semelhança com a resposta da questão 2. Segundo uma amostragem nacional alheatória de 1,150 adultos americanos, 65% das mulheres e 58% dos homens se identificava como sendo feministas quando uma definição de direitos iguais era oferecida (questão 2), mas apenas 24% das mulheres e 14% dos homens se consideravam feministas na ausência de tal definição (questão 1).

À primeira vista isso é algo paradoxal. Porque cerca de 2/3 das pessoas questionadas se consideravam feministas na presença de uma definição, enquanto menos de 1/5 o faziam quando tal definição está ausente? O que é o feminismo se não a crença na igualdade social, política e econômica entre os sexos? Segundo o autor da pesquisa, infelizmente para os feministas, muitos outros feministas acreditam que ser feminista significa acreditar em muito mais do que apenas na igualdade para as mulheres. Para ele, esses “feministas de gênero” se agarram numa perspectiva guiada ideologicamente e teoricamente inconsistente, quanto a origem e desenvolvimento da diferença entre os sexos. (Kuhle, 2012).

Parafraseando o filósofo de Nova Jersey J. B. Jovi, eles dão uma má fama ao feminismo. Ao fazê-lo, eles têm desencorajado mulheres e homens que apoiam a igualdade sexual de se auto identificar como feministas. Quando apenas menos de 1/4 de seus principais constituintes (mulheres) estão dispostas a apoiar a sua causa ao se identificar prontamente como feministas, seu movimento tem um grave problema de relações públicas. Vá mais a fundo na pesquisa da CBS e o escopo do pesadelo de relação pública fica ainda mais gritante. 17% das mulheres reportaram que chamar uma outra mulher de feminista é um INSULTO! (enquanto apenas 12% via o rótulo como um elogio). A relutância que muitas mulheres e homens têm em abraçar o rótulo feminista na ausência de uma definição como um “empurrão” é devido em grande parte a posição instável dos feministas de gênero quanto a diferença de sexos.

Uma parte considerável do problema jaz na divergência entre os dois tipos de feministas que autora Christina Hoff Sommers em seu livro “Quem roubou o feminismo? Como as mulheres traíram as mulheres” identificou como os feministas de gênero e feministas de equidade. Podemos ter uma noção melhor do motivo de tal diferença quando levamos em consideração o posicionamento dos feministas de gênero no que diz respeito, por exemplo, as contribuições e alegações da psicologia evolucionista.

Segundo Kuhle, enquanto o feminismo de equidade “não faz nenhum comprometimento em relação a questões empíricas abertas na psicologia e biologia... o feminismo de gênero é uma doutrina empírica” comprometida com diversas alegações não comprovadas acerca da natureza humana, especialmente aquela da tábula rasa psicológica no que concerne as diferenças de sexo (Pinker, 2002, p. 341). Em suma, segundo a perspectiva de grande parte dos feministas de gênero, eles argumentam que diferenças psicológicas entre os sexos possuem pouco ou nada a ver com a evolução, e que estes são em sua maioria, se não totalmente, uma construção social (Pinker, 2002; Sommers, 1994).

De acordo com o feminismo de gênero e suas alegações injustificadas acerca da natureza humana, diferenças psicológicas são singularmente imunes a seleção natural. Essa concepção distorcida da evolução compreende errado a forma como as adaptações surgem e funcionam. Uma adaptação é uma “característica confiável herdada que passou a existir como um aspecto de uma espécie através da seleção natural porque ajudou direta ou indiretamente na facilitação reprodutiva durante o período de sua evolução” (Buss, Haselton, Shackelford, Bleske, & Wakefield, 1998, p. 535). Em áreas na qual os sexos recorrentemente enfrentaram diferentes problemas evolutivos, é mais provável a seleção ter desenvolvido diferentes soluções adaptativas. Essas adaptações geralmente envolvem o entrecruzamento de traços físicos e psicológicos.

Um exemplo da natureza complementar das adaptações físicas e psicológicas pode ser vista no enjoo da gravidez. Já que as mulheres, mas não os homens, enfrentaram o problema de evitar a ingestão de teratógenos que pudessem prejudicar um feto em desenvolvimento, apenas as mulheres desenvolveram adaptações fisiológicas (ex. vomitar para expelir teratógenos) e adaptações psicológicas (ex. nojo de alimentos específicos para evitar teratógenos) para ajudar a resolver o problema. Similarmente, como os homens e não as mulheres, enfrentaram o problema adaptativo da competição de esperma e “chifrada”, apenas os homens desenvolveram adaptações fisiológicas (ex. variações de produção de esperma e inseminação como uma função do tempo passado longe da parceira; Baker & Bellis, 1995) e adaptações psicológicas (ex. variação no desejo de copular com a parceira como uma função do tempo passado longe da parceira; Shackelford, Goetz, McKibbin, & Starratt, 2007) para ajudar a solucionar o problema, logo reduzindo a probabilidade de ser induzido a criar uma prole que não seja sua (Shackelford, Pound, & Goetz, 2005).

Uma questão importante para pesquisas futuras é perguntar porque os feministas de gênero vincularam-se desnecessariamente a uma conceitualização dualística da evolução e da natureza humana que é teoricamente inalcançável e empiricamente sem suporte. Kuhle sugere duas possíveis explicações para a relutância dos feministas de gênero em aceitar que a evolução tenha deixado impressões diferentes nos corpos e mentes dos homens e mulheres e sua má compreensão da psicologia evolucionista. (Buss, 2012; Confer, Easton, Fleischman, Goetz, Lewis, Perilloux, & Buss, 2010).

O primeiro erro, o “mito da imutabilidade”, decorre de quando alguém erroneamente conclui que “se é evolutivo, então não pode ser mudado”. Como tem sido discutido vastamente, a psicologia evolucionista não vê o comportamento humano como impermeável a mudança. Na verdade, psicólogos evolucionistas têm argumentado convincentemente que o conhecimento dos inputs de informação para os mecanismos psicológicos evolutivos é um primeiro passo crucial em direção da mudança dos outputs comportamentais desses mecanismos (Buss, 1996; Buss, 2012; Confer et al., 2010; DeKay & Buss, 1992; Geher, 2006).

O segundo é falácia naturalista, que ergue sua cabeça quando alguém conclui que “se é evolutivo, logo natural, então está tudo bem e é bom”. Inúmeros psicólogos evolucionistas têm desfeito a inferência errônea de que se é o caso, então que deveria ser o caso (Buss, 2003; Geher, 2006; Pinker, 2002). Psicólogos evolucionistas não dão licença, justificam ou racionalizam qualquer pensamento, sentimento ou ação humanas. Eles meramente procuram descobrir e detalhar os desígnios dos mecanismos de processamento-informação que constituem a base da nossa psicologia.

Se alguma mulher foi subjugada porque elas foram consideradas como sendo diferentes e inferiores aos homens e alguns homens justificaram seus comportamentos misóginos como sendo uma consequência inevitável de seus genes, então a relutância em abraçar uma disciplina que visse tais comportamentos perniciosos como imutáveis e perdoáveis seria compreensível. Mas a psicologia evolucionista não é essa disciplina (Buss, 1996).

Não que você viesse a saber disso ao ler as interpretações das descobertas da psicologia evolucionista de um site como o Jezebel.com. Como apontado em um dos artigos de maior destaque recentemente, os psicólogos evolucionistas são “esquisitos” que publicam estudos “idiotas” em evolução e comportamento humano, “que parece ser o tipo de publicação que dá um tapinha na cabeça dos homens por serem idiotas e diz para eles que não é culpa deles por eles serem uns idiotas – é a evolução querida! – e esse estudo de exploração sexual não é uma exceção” (Ryan, 2012, May 24).

O estudo na mira ideológica dos feministas de gênero dessa vez é uma descoberta de pistas observáveis para exploração sexual e seu vínculo com a atração sexual do psicólogo evolucionista Cari Goetz Cari Goetz, Judy Easton, David Lewis, and David Buss. Logo após declarar que o uso de táticas sexualmente abusivas é “moralmente repreensível” e algumas vezes “criminosa”, Goetz et al. enfatizam que “esse estudo oferece um primeiro passo na direção de compreender os mecanismos psicológicos por trás das estratégias sexuais abusivas dos homens. Ao examinar as características de design específicos do abuso sexual, essa pesquisa revela pistas particulares que ativam tais mecanismos, permitindo que seja previsto quais pistas colocam as mulheres em risco de abuso sexual”. Goetz et al. não racionalizam, permitem ou justificam o uso estratégico de pistas visuais e comportamentais por alguns homens para identificar mulheres como alvo para sexo casual. Ao contrário, eles buscam compreender a natureza dos mecanismos psicológicos evolutivos dos homens como forma de proteger as mulheres dos resultados moralmente repreensíveis e (algumas vezes) criminosos desses mecanismos. Goetz et al. evitam a falácia naturalística e o mito da imutabilidade e ao invés disso buscam frear o abuso sexual das mulheres ao evidenciar um mecanismo que pode desencadeá-lo em certas situações.

O problema é que os feministas de gênero não são tão cuidados quanto Goetz et al. quanto a promulgação de tais falácias e mitos. Mas eles não são. Na verdade, eles comumente fazem uso estratégico de ambos quando se deparam com descobertas que contradizem sua contenção teórica e empiricamente falida de que a evolução moldou psicologias sexuais idênticas em homens e mulheres. Por exemplo, o artigo cômico, mas mal orientado da Jezebel a respeito do estudo de Goetz et al. parece motivado a interpretar errado a intenção do estudo ao abraçar ao invés de evitar a falácia naturalista e o mito da imutabilidade.

Então, para recapitular: uma jornalista com aparentes inclinações feministas escrevendo para um blog de feministas de gênero sobre questões femininas atacou um estudo idiota de coautoria de duas cientistas mulheres esquisitas que pode ajudar mulheres a evitar cair como vítimas de homens predadores sexuais. Se isso é feminismo, então o que diabos seria misoginia? É realmente alguma surpresa porque a maioria das mulheres americanas e homens não querem ter nada a ver com o rótulo de feminista? O porque uma-em-cada-cinco pessoas consideram que chamar alguém de feminista é um insulto?

 

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By | 2018-02-03T16:18:45+00:00 março 8th, 2017|Feminismo, Psi Evolucionista|