A importância da dedicação

Quais são as causas do sucesso? À primeira vista, a resposta é fácil: sucesso é igual a talento. Trata-se de ser capaz de fazer algo – jogar beisebol, xadrez, vender ações comerciais, escrever um blog – melhor do que qualquer outra pessoa. Essa é uma boa resposta, mas ela imediatamente faz outra pergunta surgir: O que é talento? Como é que essa pessoa ficou tão boa em jogar beisebol ou negociar ações?

Durante muito tempo acreditou-se que o talento era algo herdado, um conjunto abençoado de genes que davam origem a alguma habilidade particular. Einstein tinha o gene da física, Beethoven tinha o gene da sinfonia, e Tiger Woods tinha o gene do golfe. O corolário, é claro, é que você e eu não conseguimos nos tornar grandes mestres do xadrez, nem compositores, nem profissionais de golfe, simplesmente porque não temos a anatomia necessária, e horas intermináveis de trabalho duro não compensarão nossas limitações biológicas.

Nos últimos anos, no entanto, o pêndulo mudou e o que se tem percebido é que a natureza intrínseca ao talento foi superestimada durante esse tempo todo – nossos genes não nos conferem dons específicos. Isso levou muitos pesquisadores, como K. Anders Ericsson, a argumentarem que o talento é o resultado da prática deliberada e de muitas e muitas horas de treinamento intenso. Beethoven não nasceu Beethoven – ele teve que trabalhar duro para se tornar o Beethoven. Segundo Ericsson escreveu em seu influente artigo "O papel da prática deliberada na aquisição de desempenho expert": "As diferenças entre os executores experientes e pessoas normais não são imutáveis, isto é, devido ao talento geneticamente prescrito. Em vez disso, essas diferenças refletem um longo período de esforço deliberado com o objetivo de melhorar o desempenho."

Isso é interessante, certo? Talento é igual a prática. O talento exige esforço. Talento requer um bom treinador. Mas essas respostas só levantam mais perguntas. O que, por exemplo, permite que alguém pratique por tanto tempo? Por que algumas pessoas são tão melhores na prática deliberada? Se o talento envolve o trabalho duro, então quais fatores influenciam o quão duro podemos trabalhar?

A capacidade de fazer essas perguntas, de remover camadas de explicação, é uma das razões pelas quais me sinto atraído pelas ciências psicológicas. E isso me leva a um de meus artigos recentes favoritos, "Prática deliberada soletra sucesso: Por que os concorrentes mais dedicados triunfam no Campeonato Nacional de Soletração". A pesquisa publicada na revista Social Psychological and Personality Science, foi liderada por Angela Duckworth, uma psicóloga da Penn. Os psicólogos estavam interessados no conjunto de traços que permitiam que as crianças praticassem deliberadamente, sendo assim, eles estudaram 190 participantes do Campeonato Nacional de Soletração Scripps, um concurso que exige milhares de horas de prática, afinal, não existem soletradores de nascença.

A primeira coisa que Duckworth e seus colegas descobriram é que a prática deliberada funciona. As crianças que passaram mais tempo no modo de prática deliberada – o que envolvia estudar e memorizar palavras enquanto sozinhas, muitas vezes usando cartões de anotação – tiveram um desempenho muito melhor na competição do que aquelas crianças que foram treinadas por outras pessoas ou que treinaram apenas lendo por lazer. A má notícia é que a prática deliberada não é divertida e foi consistentemente avaliada como a forma menos agradável de auto aperfeiçoamento. No entanto, conforme os soletradores ganham experiência, eles dedicam quantidades crescentes de tempo à prática deliberada. Isso sugere que mesmo jovens de doze anos de idade percebem que isso é o que os torna melhores e que o sucesso não é algo fácil.

Mas isso ainda levanta a pergunta: por que algumas crianças eram melhores em se mergulhar nos cartões de anotação? O que explica essa variação nas horas dedicadas à prática deliberada? Depois de analisar os dados, Duckworth descobriu a importância de um traço psicológico conhecido como dedicação. Em artigos anteriores, ela havia demonstrado que a dedicação pode ser medida de forma confiável com um breve questionário que mede a consistência das paixões (por exemplo, "eu tenho estado obcecado por uma certa ideia ou projeto por um curto período de tempo, mas depois perdi o interesse") e consistência de esforço ao longo do tempo (por exemplo, "Os contratempos não me desencorajam") usando uma escala de 5 pontos. Não é de se surpreender que aqueles que têm dedicação são mais perspicazes em seus objetivos – eles tendem a ficar obcecados com certas atividades – e também são mais propensos a persistir quando se deparam com a luta e o fracasso. Woody Allen tem uma frase famosa que diz que "Oitenta por cento do sucesso está em aparecer". A dedicação é o que permite que você apareça repetidas vezes.

Há dois aspectos interessantes deste estudo. A primeira é que existe uma grande contradição entre a forma como medimos o talento e as causas do talento. Em geral, medimos o talento usando testes de desempenho máximo. Pense, por exemplo, no NFL Combine (evento anual de Futebol Americano que pode ser comparado a um vestibular no qual atletas que acabaram de sair da faculdade tentam entrar na liga profissional): Os jogadores executam tarefas de explosão em condições de alta motivação. O objetivo do evento é ver do que os jogadores são capazes e determinar o escopo do potencial deles. O problema destes testes, no entanto, é que o mundo real não se assemelha ao NFL Combine. Em vez disso, o sucesso no mundo real depende de sustentar um desempenho, de ser capaz de trabalhar duro e passar o fim de semana estudando tipos diferentes de jogadas e revendo horas de gravações de jogos. Essas são todas versões de prática deliberada, e a capacidade de se engajar em tais exercícios depende, em grande parte, dos níveis de dedicação. O problema, é claro, é que a dedicação não pode ser medida em uma única tarde e em um único campo de futebol. (Por definição, é uma métrica de personalidade que envolve longos períodos de tempo.) O resultado final é que nossas crenças erradas sobre talento levaram a criação de testes falhos sobre o talento. Talvez isso explique por que não há uma "relação estatística consistente entre os testes combinados e o desempenho profissional de um jogador de futebol". Precisamos de um teste que meça a probabilidade das pessoas aparecerem, e não apenas a performance delas uma vez que estão lá.

O segundo aspecto interessante envolve o reconhecimento crescente de habilidades "não cognitivas" como dedicação e autocontrole. Embora esses traços tenham pouco ou nada a ver com inteligência, eles muitas vezes explicam uma maior parcela da variação individual quando se trata de sucesso na vida. Não importa se alguém está olhando para o desempenho de professor no programa Teach for America ou o sucesso de um aluno num concurso de soletração: Fatores como a dedicação são muitas vezes as variáveis mais preditivas do desempenho no mundo real. Thomas Edison estava certo: até mesmo um gênio é, em grande parte, apenas transpiração.

Tomados em conjunto, esses estudos sugerem que o nosso talento mais importante é ter um talento para trabalhar duro, para praticar, mesmo quando a prática não é divertida. Trata-se de se dedicar durante as horas em que preferiríamos estar assistindo TV, ou mergulhar em meio de cartões de anotação preenchidos com palavras obscuras em vez de ficar treinando com um amigo. O sucesso nunca é fácil. É por isso que o talento exige dedicação!

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By | 2018-02-03T16:17:51+00:00 Março 15th, 2017|Metas, Produtividade|