O poder do placebo: bêbado de expectativas

O poder do placebo: bêbado de expectativas

No segundo episódio da série de TV Freaks e Geeks – Judd Apatow (1999) – o irmão mais novo, Sam Weir, entra em pânico, quando sua irmã Lindsay concorda em dar uma festa enquanto seus pais estão fora da cidade. Motivado pelo medo do castigo, Sam e seus amigos trocam o barril da festa por outro que está abastecido com cerveja sem álcool. Mais tarde à noite, eles emergem do seu esconderijo e ficam chocados ao encontrar os outros adolescentes trocando palavras, tropeçando e agindo como se estivessem completamente intoxicados.

Segundo Irving Kirsch, diretor associado do Programa em Estudos Placebo na Harvard Medical School, o enredo do capítulo é totalmente factível pois, “quando esperamos experimentar algo, essa expectativa tende a gerar, até certo ponto, o que se espera que aconteça. Se esperamos sentir dor, isso vai fazer com que a dor seja pior... quanto mais forte temos essa convicção, maior é o efeito”.

O efeito placebo observado aqui depende dos princípios do condicionamento clássico, que visa desencadear ações específicas, associando-as a determinadas pistas, como observado pelo fisiologista russo Ivan Pavlov no início dos anos 1900. Em seus experimentos, Pavlov usou um sino que tocava sempre antes de alimentar seus cachorros, fazendo com que os cães associassem o barulho com a refeição. Tempos depois, o mero barulho do sino era o suficiente para fazer com que os cães salivassem. No capítulo em questão o barril e copos de cerveja tiveram o mesmo efeito.

É por isso que George Koob, diretor do Instituto Nacional de Abuso de Álcool e Alcoolismo, recomenda que os alcoólatras evitem ambientes de festa no início de sua recuperação e aconselha contra o consumo de cerveja sem álcool como uma forma de distração para o fato da pessoa não poder beber a cerveja normal. O mero ato de existir um barril de cerveja – mesmo que esse bombeie cerveja não alcoólica – é o suficiente para desencadear uma recaída, porque esses estímulos podem provocar desejos em um viciado.

Os estímulos sozinhos podem ter um efeito embriagante surpreendentemente forte, diz Koob, apontando para o que ele chama de “fenômeno da agulha”, ou o que um estudo de 2001 chamou de fixação pela agulha: viciados em heroína que injetaram “soro fisiológico em vez de heroína, por via intravenosa, ficavam “altos” por causa de todos o trabalho associado à utilização da droga”, diz Koob. Além disso, eles encontraram uma mudança fisiológica mensurável – aparentemente, só o processo de preparação de uma injeção já é capaz de fazer com que os cérebros de adictos liberassem produtos químicos opióides ‘muito semelhantes à morfina’, processo semelhante ao da descarga de adrenalina naturalmente liberada nos nossos corpos em uma situação de luta ou fuga.

Kirsch compara o cenário do capítulo de Freaks e Geeks com estudos com antidepressivos em que os participantes do grupo placebo frequentemente experimentam o alívio de seus sintomas, mesmo que os comprimidos que estão tomando não alterem a química do cérebro deles.

“Em qualquer um dos cenários, você está tendo uma experiência sugestiva e seu comportamento combina com a experiência que você está tendo”, diz ele. O que está causando a experiência pode ser a substância ou sua expectativa do efeito da substância, mas, independentemente, a reação é objetivamente real – há mudanças fisiológicas observáveis que os cientistas podem rastrear. De fato, estudos registraram mudanças na atividade cerebral em pacientes que, sem saber, tomaram placebos que simulavam o efeito da droga de verdade.

Mas o pêndulo balança para os dois lados – um falso bêbado (que tomou placebo acreditando que era álcool de verdade) poderia ter uma ressaca ruim, disse Kirsch, apontando para o “efeito nocebo”, no qual os indivíduos que tomam um placebo experimentam efeitos colaterais indesejados puramente baseados na expectativa pessimista. Em um exemplo extremo, um participante em um teste com antidepressivos tentou se suicidar através da superdosagem das pílulas que ele havia recebido como parte do estudo.

“Ele tomou todas as pílulas do frasco, foi ao hospital e teve vários sintomas físicos consistentes com uma superdosagem", disse Kirsch. “Os médicos realizaram uma lavagem estomacal e ao saber que ele estava fazendo parte de um estudo, entraram em contato com os pesquisadores e descobriram que ele estava no grupo de placebo”. As pílulas continham “ingredientes inertes que não produziam nenhum dano, mas ele teve sintomas similares aos que os médicos do hospital achavam que teria se tivesse tomado tantos comprimidos de verdade”.

Felizmente, o efeito nocebo tem seus limites. Um fator chave para uma intoxicação por placebo “é a interação social que o impulsiona e sustenta. Muitas vezes, os efeitos placebo são de curta duração", disse Koob. Então, um indivíduo que fica “alto” por pura sugestão tem tanta probabilidade de se envolver em um acidente de carro quanto um motorista sóbrio.

O capítulo de Freaks e Geeks também aborda a importância da ilusão: é preciso acreditar que a substância é real para que o corpo possa fabricar o efeito esperado. Um estudo realizado com álcool placebo demonstrou que se você dissesse ao grupo o que eles de fato haviam bebido, isso limitava o efeito placebo”.

No final do episódio, um adolescente que estava incrivelmente sóbrio enquanto seus colegas caiam e vomitavam admite que ele sabia que a cerveja era “falsa”. “Eu sei”, seu personagem, Ken Miller, diz com calma enquanto o resto dos convidados se dispersa com a notícia de que a polícia está a caminho. “Eu ganhei 77 dólares jogando cartas. Esta festa foi o máximo”.

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Por | 2018-08-17T19:19:30+00:00 janeiro 29, 2018|Álcool & Drogas|