Saúde Mental em Crianças

Saúde Mental em Crianças

Pedro é um menino de 10 anos que está sofrendo abuso físico por seu pai e está apresentando problemas de agressividade na escola.

Esse comportamento é uma reação natural ao abuso que ele sofre em casa, uma vez que Pedro está aprendendo com o pai que ser violento é algo normal e é uma forma de lidar com as emoções difíceis. Mas, esse comportamento também pode marcar o início de um distúrbio de conduta que, não diagnosticado e tratado, pode trazer graves consequências para a vida dele.

Na escola, Pedro é visto pelos professores como um encrenqueiro e é continuamente punido pelo seu comportamento. Anos depois, Pedro acaba abandonando a escola porque a vê como um ambiente hostil e desagradável. Além disso, ele também resolve fugir de casa por não aguentar mais viver em um lar violento e abusivo.

No entanto, Pedro não consegue um bom emprego por causa da baixa escolaridade e muitas vezes tem problemas com os colegas e chefes do trabalho por causa da sua agressividade. Coberto de dificuldades emocionais e financeiras, Pedro acaba buscando o álcool como forma de se automedicar, o que traz mais problemas de conduta e de agressividade.

Quando Pedro finalmente recebe um diagnóstico adequado para seu distúrbio de conduta e uso abusivo de álcool, ele já tem trinta e poucos anos e seus problemas de saúde mental se tornaram profundamente enraizados. Agora, vão exigir uma terapia extensa, que ele provavelmente não terá como pagar com o salário que ele recebe.

Essa história pode parecer um tanto quanto caricata, mas infelizmente ela é real e é a realidade de muitas e muitas crianças. As coisas poderiam ter sido muito diferentes se Pedro tivesse recebido a devida atenção enquanto criança e tivesse sido encaminhado para um psiquiatra que pudesse diagnosticá-lo e a um psicólogo que pudesse oferecer o acompanhamento necessário, assim como alertar as autoridades sobre o abuso que estava sofrendo por parte do pai.

A saúde mental das crianças é sem dúvida o aspecto mais importante do desenvolvimento social e cognitivo de qualquer criança. Elas precisam ter um bom estado de saúde mental para viver de acordo com seu pleno potencial e ter uma vida cheia de experiências positivas.

Há uma infinidade de fatores que podem afetar o estado de saúde mental de uma criança, tanto positiva quanto negativamente. Sendo assim, proporcionar a elas um ambiente que demonstre amor, compaixão, confiança e compreensão terá grande impacto sobre elas, de modo que possam se basear nesses degraus para ter um estilo de vida produtivo.

No entanto, muitas crianças não recebem esse tipo de estilo de vida. Assim como vimos na história de Pedro, muitas têm que lidar com uma infância cheia de angústia, ressentimento, ódio, desconfiança e negatividade constante. É um processo difícil para qualquer pessoa, quanto mais para uma criança, superar tal adversidade, mas ser proativo e fazer tudo o que for possível para ajudá-la a superar tais adversidades pode trazer impactos positivos para a sua saúde mental.

Estudos têm demonstrado que se não receberem o devido tratamento por um profissional de saúde mental, essas crianças tendem a ter uma baixa autoestima, sentimentos negativos, desempenho ruim na escola e, mais tarde, se envolver em decisões de estilo de vida pouco saudáveis. Além disso, elas provavelmente crescerão e repetirão esses mesmos comportamentos com os filhos delas. No entanto, quando elas recebem o tratamento adequado, elas podem aprender a viver uma vida mais promissora e superar muitos dos problemas que as afetam e podem viver vidas felizes e produtivas, cheias de amor, harmonia e uma saúde mental de qualidade.

 

Quantas crianças e adolescentes têm transtornos mentais?

Segundo estimativas da Organização das Nações Unidas (ONU), as crianças e adolescentes representam respectivamente 30% e 14,2% da população mundial. Nessas populações são encontradas altas taxas de prevalência de transtornos mentais (uma média global de 15,8%) e essa taxa tende a aumentar proporcionalmente com a idade, sendo a prevalência média entre os pré-escolares de 10,2% e entre os adolescentes de 16,5%. No Brasil, estudos registraram taxas de prevalência de 7 a 12,7% e estima-se que uma em cada quatro crianças e adolescentes sofre de algum tipo de transtorno mental.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), existem duas grandes categorias específicas de transtornos mentais na infância e adolescência: a primeira é de comportamento e a segunda, emocionais. Os transtornos do desenvolvimento psicológico têm como características o início na primeira (0-3 anos) ou na segunda (3-6 anos) infância, com comprometimento ou retardo do desenvolvimento de funções estreitamente ligadas à maturação biológica do sistema nervoso central e a evolução contínua sem remissão ou recaídas. Já os transtornos de comportamento e emocionais incluem os transtornos hipercinéticos como distúrbios da atividade e da atenção e distúrbios de conduta. Este grupo de transtornos inicia precocemente, durante os primeiros cinco anos de vida, e pode vir acompanhado de um déficit cognitivo e de um atraso específico do desenvolvimento da motricidade e da linguagem.

 

Sinais de transtornos mentais em crianças

Os transtornos mentais entre crianças mudam com o tempo e à medida que a criança cresce. Eles muitas vezes provocam mudanças sérias na forma como as crianças tipicamente aprendem, brincam, falam, agem e se comportam ou lidam com suas emoções, trazendo angústia e problemas para o dia a dia. Sendo assim, podemos observar falta de atenção, dificuldades na linguagem escrita e na leitura, alterações de comportamento, déficit de memória, fadiga e dificuldade em organizar tarefas. Outros sinais importantes são: agressividade, gagueira, isolamento social, fobia, medo, tristeza, ansiedade, problemas alimentares, incontinência urinária e fecal, entre outros.

Quanto mais precoce o diagnóstico, melhor o resultado do tratamento, sendo assim, perceber os sintomas e encaminhar para um acompanhamento adequado é essencial para estabelecer um diagnóstico correto e evitar prejuízos futuros.

 

Fatores de risco

Como vimos, diversos fatores podem contribuir positiva ou negativamente para a saúde mental das crianças, mas existem alguns fatores de risco que tornam crianças e adolescentes mais propensos a ter problemas do que outras crianças. Alguns desses fatores incluem:

  • ter uma doença física a longo prazo
  • ter um pai ou mãe que tenha problemas de saúde mental, uso abusivo de álcool ou outras substâncias, ou com problemas com a lei
  • morte de algum ente próximo
  • ter pais que se separam ou se divorciam
  • ter sido severamente intimidado ou fisicamente ou sexualmente abusado
  • viver na pobreza ou sem-teto
  • discriminação por causa de raça, sexualidade ou religião
  • ser cuidador de um parente, assumindo responsabilidades adultas
  • ter dificuldades educacionais de longa data.

 

Tipos de Transtornos mais comuns em crianças

As crianças podem desenvolver todas as mesmas condições de saúde mental que os adultos, mas às vezes as expressam de forma diferente. Por exemplo, crianças deprimidas frequentemente mostram mais irritabilidade do que adultos deprimidos que, por sua vez, tipicamente demonstram tristeza.

As crianças podem experimentar uma série de condições de saúde mental, incluindo:

Transtornos de ansiedade: Crianças que têm transtornos de ansiedade – como transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno de estresse pós-traumático, fobia social e transtorno de ansiedade generalizada – e experimentam a ansiedade como um problema persistente que interfere em suas atividades diárias.

Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH): Essa condição geralmente inclui sintomas em dificuldade, atenção, hiperatividade e comportamento impulsivo. Algumas crianças com TDAH apresentam sintomas em todas essas categorias, enquanto outras podem ter sintomas em apenas uma.

Transtorno do espectro do autismo (TEA): aparece na primeira infância – geralmente antes dos três anos de idade. Embora os sintomas e a gravidade variem, o TEA sempre afeta a capacidade da criança de se comunicar e interagir com outras pessoas.

Transtornos alimentares: Transtornos alimentares – como anorexia nervosa, bulimia nervosa e transtorno da compulsão alimentar periódica – são condições sérias, até mesmo fatais. As crianças podem ficar tão preocupadas com comida e peso que pouco se concentram no resto.

Distúrbios do humor: Transtornos de humor – como depressão e transtorno bipolar – podem levar a criança a ter sentimentos persistentes de tristeza ou mudanças extremas de humor muito mais graves do que as alterações de humor comuns em muitas pessoas.

Esquizofrenia: Esta doença mental crônica faz com que a criança perca o contato com a realidade (psicose). A esquizofrenia aparece com mais frequência entre o final da adolescência e os 20 anos.

Transtorno Opositivo Desafiador (TOD): caracterizado por comportamentos antissociais como desobediência, postura desafiadora e hostilidade. Os primeiros sintomas costumam aparecer aos quatro anos de idade, quando a criança começa a apresentar dificuldades para seguir regras e reconhecer seus erros, se ressentindo mais do que o normal quando é contrariada.

Transtorno de Conduta (CD): desordem de comportamento agressivo, na qual a criança com apresenta um comportamento extremamente rebelde, muitas vezes se envolvendo em roubo, vandalismo e brigas. Uma criança com CD é frequentemente muito difícil para a família e tem problemas na escola, em casa, na rua e em manter amizades. O CD é uma forma agravada do TOD.

Autolesão (automutilação): infligir deliberadamente danos físicos ao seu corpo se cortando, queimando, batendo, arrancando pelos ou o cabelo, arranhando a pele e batendo com a cabeça. Um grande estudo australiano mostrou que aproximadamente 7,6% das crianças de 10 a 12 anos de idade já manifestaram algum comportamento de autolesão.

 

O que você pode fazer?

Pais: Você conhece melhor seu filho. Fale com o profissional de saúde do seu filho se tiver dúvidas sobre a maneira como ele se comporta em casa, na escola ou com amigos.

Crianças e adolescentes: É tão importante cuidar da sua saúde mental quanto cuidar da sua saúde física. Se você está com raiva, preocupado ou triste, não tenha medo de falar sobre seus sentimentos e estender a mão a um amigo ou adulto de confiança. Procure ajuda.

Profissionais de saúde: O diagnóstico precoce e o tratamento adequado com base em diretrizes atualizadas são muito importantes. Existem recursos disponíveis para ajudar a diagnosticar e tratar os transtornos mentais das crianças.

Professores / administradores da escola: A identificação precoce é importante para que as crianças possam obter a ajuda de que precisam. Trabalhe com famílias e profissionais de saúde se você tiver preocupações sobre a saúde mental de uma criança em sua escola.

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Por | 2018-10-11T16:57:56+00:00 outubro 10, 2018|Infância, Saúde Mental|

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