Teoria da Mente: Entendendo os Outros em um Mundo Social

Teoria da Mente: Entendendo os Outros em um Mundo Social

Os conceitos centrais envolvidos na Teoria da Mente são crenças, desejos e intenções, que são usados para entender por que alguém age de uma determinada maneira ou para prever como alguém irá agir (Kloo et al., 2010). Em geral, a Teoria da Mente envolve a compreensão do conhecimento, das crenças, das emoções e das intenções de outra pessoa e o uso dessa compreensão para navegar em situações sociais. Uma tarefa comumente usada para medir a Teoria da Mente é uma tarefa de crença falsa, como esta a seguir:

  1. Mostre à criança uma caixa de Band-Aid e pergunte a ela o que acha que tem dentro da caixa. Ele ou ela provavelmente responderá “band-aids”.
  2. Abra a caixa e mostre-lhe que há um porco de brinquedo dentro, enquanto dizendo “Vamos ver ... é realmente um porco dentro!”, e em seguida, feche a caixa.
  3. Agora, traga uma outra criança que não participou da primeira parte do teste e pergunte para a criança que já estava lá: “Pedro nunca viu o que tem dentro desta caixa de Band-Aid. Então, o que você acha que Pedro pensa que tem na caixa? Band-Aids ou um porco?”

Essa tarefa mede a compreensão da criança de que alguém pode ter uma crença sobre um evento ou objeto que não corresponde ao que a criança sabe que é verdade na realidade. As crianças que já desenvolveram a Teoria da Mente compreenderão que Pedro tem um entendimento diferente do que elas, porque ele não viu na caixa. Eles responderão que ele acha que Band-Aids estão na caixa. Aqueles que ainda não desenvolveram a Teoria da Mente podem responder que Pedro acha que há porcos na caixa, assumindo erroneamente que Pedro tem a mesma crença que eles.

 

Quando as crianças desenvolvem a Teoria da Mente?

Por volta dos 4 anos, as crianças melhoram as tarefas da Teoria da Mente e são capazes de entender que alguém pode estar agindo com base em uma crença falsa sobre um objeto ou evento (Kloo et al., 2010).

Para crianças com atrasos no desenvolvimento, como aqueles com transtornos do espectro do autismo (TEA), a Teoria da Mente pode demorar um pouco mais para se desenvolver e algumas habilidades de nível mais alto podem não ser alcançadas. Os jovens com idades entre 5 e 13 anos com autismo receberam pontuações mais baixas em medidas de compreensão das crenças e emoções dos outros, mas não houve diferenças para entender as intenções dos outros, possivelmente porque a compreensão das intenções é uma habilidade menos complexa que se desenvolve mais cedo do que entender crenças e emoções (Mazz et al, 2017).

A Teoria da Mente também previu o diagnóstico de TEA, de tal forma que aqueles com o nível mais baixo de tais habilidades tiveram diagnósticos mais severos (isto é, autismo com deficiência intelectual) em comparação com diagnósticos para aqueles com habilidades mais sofisticadas da Teoria da Mente (como a Síndrome de Asperger) (Hoogenhout & Malcolm-Smith, 2016).

Compreendendo a Teoria da Mente, talvez possamos não apenas diagnosticar melhor aqueles com atrasos, mas também criar intervenções mais eficazes para encorajar e apoiar o progresso do desenvolvimento.

 

Como a Teoria da Mente está relacionada a outras áreas de desenvolvimento?

O entendimento da crença falsa, independente da capacidade de linguagem e idade da criança, tem sido relacionado a vários aspectos do funcionamento social, incluindo a capacidade de se engajar em conversas significativas, a capacidade de resolver conflitos, de manter intimidade nas amizades e a competência social geral (Astington, 2003). Assim, as crianças que têm uma compreensão de falsas crenças geralmente são mais avançadas no desenvolvimento social também. Além disso, compreender as emoções e crenças dos outros desempenha um papel no desenvolvimento da competência social para crianças, e a falta desses componentes da Teoria da Mente, que pode ser evidente para aqueles com autismo ou outros atrasos no desenvolvimento, pode comprometer o desenvolvimento social (Mazz et al., 2017).

Existem algumas evidências de que as habilidades da função executiva (como inibição, mudança, flexibilidade cognitiva) estão relacionadas à Teoria da Mente, de modo que alunos da pré-escola com habilidades mais avançadas são mais capazes de manter múltiplas perspectivas em mente e alternar entre elas. Essas perspectivas podem auxiliar na distinção entre a realidade e a crença de outra pessoa (Kloo et al., 2010). A função executiva também tem sido associada à competência social, de modo que os déficits resultam em níveis mais baixos de competência social (Alduncin, Huffman, Fedman & Loe, 2014), mas a competência social (isto é, habilidades sociais e engajamento nas interações) também mostrou relação com o desenvolvimento da função executiva (Bierman et al., 2009; Park & Lee, 2015, Williford et al., 2013).

Então, o que tudo isso significa? Essa Teoria da Mente desempenha um papel complexo no desenvolvimento e está relacionada à competência social e à função executiva. Mas a função executiva também contribui para a competência social e, possivelmente, para as habilidades da Teoria da Mente. Há muitas pesquisas novas focadas nesses relacionamentos, por isso continuamos a aperfeiçoar nossa compreensão de como essas três áreas de desenvolvimento influenciam umas às outras.

Pesquisas ainda estão trabalhando para concretizar a direcionalidade desses relacionamentos, o que é importante continuar buscando para que possamos ajudar as crianças a alcançar seu potencial em todas essas áreas. Habilidades sociais são difíceis de ensinar, modelar e encorajar em todas as crianças pequenas, especialmente aquelas que estão atrasadas em seu desenvolvimento. Se pudermos entender os mecanismos por trás da competência social, como o funcionamento executivo e a Teoria da Mente, poderemos ajudar todas as crianças a atender às expectativas sociais que encontram na vida cotidiana.

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Por | 2018-09-28T22:11:44+00:00 outubro 29, 2018|Empatia, Infância|

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